Ema Beatriz – São Paulo/SP

Giuliano Mourão – São Paulo/SP
19/08/2012
Eunice da Silva Carneiro – Uberlândia/MG
19/08/2012

Ema Beatriz – São Paulo/SP

Um dia eu vi fotos sobre Monte Roraima e foi paixão à primeira vista e que me consumiu durante cinco anos. Finalmente, em novembro de 2005 meu sonho seria realizado e lá fui eu, mochila nas costas, subir o enorme paredão de pedra. Parecia que eu estava em terra de gigantes. Mas ao chegar no topo descobri que o Monte Roraima é o próprio gigante daquela natureza pura, cujo topo é enfeitado por flores, lagos, formações rochosas de milhões de anos, cristais esparramados pelo chão, sobre os quais se pode andar, sentar, meditar.

É uma trilha longa, com a neblina tomando conta do espaço. Lá em cima, não se sente o tempo passar e os sons captados são apenas os dos próprios passos e do vento. À noite, as estrelas surgem uma a uma, formam grupos e se estendem por todo o céu. É um momento de grande prazer!

Nós éramos dez expedicionários, bem organizados sob o comando em terra pelo Magno. Mas lá em cima, quem mandava de verdade eram José e Léo, os dois guias venezuelanos. E mais os índios que carregaram nas costas nosso acampamento.

Falar dos amigos com quem vivi esses dias é muito bom, pena que não dá para relatar todos os segundos que ali passamos.

Marina tem um modo delicado de falar. E foi dessa forma que, comentando sobre cavalos, ela disse que jamais subiria num , a não ser que tivesse um motorista.

Takako sofre de claustrofobia. Imaginem só a noite que ela deve ter passado numa barraca que servia de proteção para mini-minhocas. Além disso, falava coisas muito engraçadas, mas que talvez a censura não deixe passar.

Lucília, companheira de trilhas passadas, trocou o cajado pela máquina fotográfica. Mística, amante de tudo o que é natural, caminhava quieta, os ouvidos abertos aos sons que muitas vezes só ela ouvia. Por exemplo, o clique de suas fotos.

Tereza, sorriso suave, fala mansa, era a mais nova do grupo. Cansada e suada, a noite escura, tudo contribuiu para um banho no rio. Enquanto se banhava, deslumbrada com o cenário cinematográfico, não percebeu que aquele brilho todo à sua volta não eram estrelas e sim lanternas que iluminavam seu corpo.

Luís Augusto, que a princípio parecia muito sério, ganhou o apelido de Mauricinho, sempre de cabelos penteados, também cortava e lixava as unhas. Lavava suas roupas todos os dias, mas até o final não se conformava em ter de carregar os sacos plásticos que nos serviam de banheiro.

Vitor, um argentino bem humorado, era o mais econômico com as roupas. Todas às noites dava um jeito de lavar a cueca, mas no dia seguinte era obrigado a pendura-la na mochila para secar. Decidiu não fazer a barba, só para assustar a esposa quando chegasse em casa, que, com certeza, não o reconheceria.

Osíris veio lá do Paraná, chefe de escoteiros dava um baile em todos nós. Ninguém conseguia alcançar seus passos. Conhecedor da natureza, Osíris teve seu momento de êxtase: um beija-flor pousou em seu dedo.

Cláudio, carioca acostumado ao calor de 40 graus, caiu de para quedas no frio de Monte Roraima.Tinha apenas duas bermudas, duas camisetas, um moletom. Nem boné ele levou. Mas seu olhar era o de que jamais veria coisa parecida àquele paraíso.

Alécio, agora é a sua vez. Você nos conduziu muito bem e tenho certeza que essa foi uma das melhores experiências da sua vida. Isso graças a mim, teimosa como uma mula, que falou no seu ouvido para fazer a viagem. Viu como tudo deu certo? Espero que agora você não vai achar malucas as viagens que invento.

Falar de mim é estranho, difícil dizer coisas de nós mesmos. Enfim, admito que o Alécio tem razão com minha teimosia e também reconheço que sou muito desligada, a ponto de confundir a água da cachoeira com a da chuva. Atrapalhei-me com a capa, os óculos, pulava em pedras erradas, dei trabalho para atravessar os rios. Herdei a barraca de minhoca da Takako. Mas não posso deixar de dizer que a emoção quase me derruba no fim da trilha e que valeu a pena sonhar, insistir no sonho, pois só assim ele se torna realidade.

Esta crônica é dedicada a Orlinda, que machucou o pé em Boa Vista e não pode nos acompanhar até o topo do Monte Roraima.

 

 

 

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